Falar sobre cultura é um grande desafio principalmente no meio cristão. A relação do cristão com a cultura sempre foi uma relação de tensões, dúvidas, convicções parciais e conflitos. A própria definição do termo ganha um sentido mais particular, dependendo da época em que ela é feita. Hoje, podemos observar que “cultura” é uma palavra bastante desgastada e ainda muito mal compreendida, com interpretações e nuances em cada contexto a que é aplicada.

Acredito que, enquanto vivermos “nesse mundo” ou nesse século – entendendo que essa é uma afirmação temporal e não uma divisão espacial, enquanto vivermos entre a encarnação e a parousia (o retorno de Jesus) esse será um problema na vida do cristão.  

Mas, o que é cultura? 

Em poucas palavras, são os hábitos, língua e vida artística cultivados em uma localidade ou nação: as histórias, os símbolos, a forma de política, as estruturas de poder, as estruturas organizacionais, o sistema de educação, os sistemas de controle, os rituais e rotinas, etc.  Tudo o que caracteriza a realidade social de um povo ou sociedade: valores, costumes, atitudes e crenças.

Para falar sobre o cristão e a cultura, precisamos lembrar que a igreja não nasceu em nossa geração. Precisamos ter um olhar humilde, examinando a história da igreja para ver como os cristãos do passado lidaram com a cultura.  

O teólogo H. Richard Niebuhr (1894-1962), dentro de sua pesquisa sobre o assunto, presenteou-nos com o livro Cristo e cultura. Nele, o autor apresenta cinco modelos de como os cristãos se relacionaram com a cultura ao longo da história. Até hoje, a pesquisa de Richard Niebuhr, a respeito desse tópico, serve como referência para teólogos, pesquisadores e para as igrejas, pois fornece ferramentas para descrever a forma que os cristãos encaram questões sociais, éticas, políticas e econômicas.

Precisamos entender que, quando o cristianismo surgiu, ele foi imediatamente convocado a enfrentar um difícil problema, pois os cristãos estavam imersos em um entendimento de realidade já existente e tinham sua própria forma de viver há tempos. Uma sociedade repleta de interesses intrincados já havia se formado – existia um Estado no qual seus cidadãos viviam; as artes e ciências tinham suas práticas desenvolvidas e eram elevadas em seu prestígio; costumes e hábitos sociais haviam assumido forma. Em suma, o Evangelho de Cristo encontrou uma rica vida natural, uma cultura altamente desenvolvida. 

Como relacionar-se com a cultura?

Em consequência, levantou-se a inevitável indagação sobre como ajustar as relações entre ambos. Será que os cristãos precisavam rejeitar tudo e viver como se tudo que estava nessa terra fosse uma obra do Diabo? É necessário criar uma cultura paralela, um universo à parte e tornar-se uma subcultura e contracultura radical? Ou ao invés disso abraçar sem reservas tudo como sendo bom, ignorando os aspectos da Queda e da idolatria humana? 

Acredite, todas essas indagações nos assolam até hoje, e ao olhar para a igreja evangélica no mundo é possível perceber que, de alguma forma, elas assumem uma dessas opções: ou tornam-se uma subcultura dentro de uma cultura, ou abraçam a cultura corrente a ponto de não mais observarmos um contraste de trevas e luz.

Mas será que existe uma maneira correta e saudável para essa relação com a cultura? Creio que sim, apesar de esse ser um grande desafio. Precisamos entender que os cristãos (homens resgatados pela obra redentora do Cristo), não foram resgatados do mundo para criarem um universo paralelo ou para abraçam as coisas como se “tudo” fosse bom, vivendo uma utopia. 

Contracultura

As palavras do Apóstolo Paulo aos Colossenses, de alguma forma precisam nos mostrar que a nossa relação com a realidade, deve repousar sobre esse conhecimento.  

“Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados.
Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação,
pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele.
Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste.
Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a supremacia.
Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude,
e por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão no céu, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz.”  – Colossenses 1:13-20

E agora? De fato, precisamos olhar para a realidade, como intérpretes dela, pois agora a ressurreição não é apenas uma “esperança” e sim uma realidade. Em Cristo, podemos ser contracultura – denunciando as perversões e distorções da cultura, por isso dizemos que “não somos do mundo”, mas estamos no mundo. Em Cristo entendemos que todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele. 

Transformando a cultura

O cristão é um agente transformador da cultura, entretanto, ela deve ser levada cativa ao senhorio de Cristo, sem desconsiderar a Queda e o pecado, mas enfatizando que, no princípio, a criação era boa. Lá no princípio, logo após criar o homem, Deus deu a ele os mandatos criacionais (os mandatos espiritual, social e cultural):

E Deus os abençoou e lhe disse: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.” – Gênesis 1:28

Do mesmo modo que, um dos objetivos da redenção é o anúncio do Reino de Deus, e a cultura não está fora desse Reino. A realidade da ressurreição é espiritual, cósmica e histórica, e a cultura não é algo externo a isso.  Sendo assim, por mais iníquas que sejam certas instituições, elas não estão fora do alcance da soberania de Deus. Ou seja, mesmo sabendo da queda – que não pode ser ignorada, o cristão não abandona a cultura, mas denuncia a falsa cultura e a distorção da mesma. Ele busca sinalizar do reino de Deus, discernindo e comunicando dentro da cultura a famosa tríade transcendental: o bom, o belo e o verdadeiro. Levando a cultura aos pés de Cristo, faz com que a fé, a esperança e o amor estejam em harmonia com a vida daqueles que testemunham o Reino de Deus e toda a sua realidade. Reino de Deus não é utopia!

Dicas

Se você deseja ir mais profundo ao assunto, segue uma lista de livros para auxiliar.  Boa leitura! 

    • H. Richard Niebuhr – Cristo e Cultura 
    • Michael Horton – O Cristão e a Cultura 
    • D. A. Carson – Cristo & Cultura: Uma releitura
    •  Comissão de Lausanne – O Evangelho e a Cultura
    • Andy Crouch –  Culture Making
    • David Platt – Contracultura

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